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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Felipe Dionísio Prestes


Em uma distinta cidade ao sul do país morava um jovem chamado Felipe Dionísio Prestes. Ele tinha vontade de realizar grandes feitos, o que demandava muito conhecimento e tempo. Porém o rapaz era apressado e esperava conquistar tudo o mais rápido possível.
Nosso obstinado jovem entrou para uma firma que realizava projetos de reparos que eram importantes para pequenas empresas e passou a ser o segundo setor, recebendo os projetos que vinham da recepção e decidindo se realizava ele mesmo o reparo necessário ou se repassaria aos arquitetos para realizarem o serviço. Ele ganharia uma quantia por cada projeto feito e logo no primeiro mês passou a realizar três vezes mais projetos que os seus companheiros de serviço. Seus companheiros que realizavam em média 10 projetos ao dia se viram desconfiados quando aquele jovem, recém chegado, passou a realizar 30 projetos no mesmo tempo. Um dia as canetas sumiram e só foram compradas novas no final do expediente, os colegas, desanimados, realizaram 3 ou 4 projetos com muito esforço, ainda assim, Felipe Dionísio Prestes conseguiu a impressionante marca de 23 projetos.
Um dia, um dos colegas do rapaz descobriu um projeto que havia sido dado como encerrado por ele sem alterações e no mesmo dia ainda encontrou outro. A notícia se espalhou, o paladino estava encerrando projetos sem ao menos realizar as alterações necessárias, no mesmo dia uma das moças da recepção veio à um superior dele e trouxe uma pilha de projetos não alterados que os clientes tinham devolvido para que fossem desta vez realizados corretamente. Ela apontou a assinatura de Felipe Dionísio Prestes e citou que o jovem era um irresponsável.
Conforme as especulações cresciam, o rapaz se sentia cada vez mais ofendido, ele vociferou à todos que não havia realizado nenhum processo fora do padrão. Então, todos que falaram contra o rapaz foram chamados à uma reunião onde o superior citou a eles que deveriam se espelhar nele para realizar os projetos pois a empresa também recebia por projeto realizado e ele por consequência, citou que o rapaz estava certo e que nenhum procedimento fôra realizado fora do padrão.
O jovem obstinado logo foi promovido após premiação por seu serviço inigualável e, assim que pode, conheceu o proprietário da empresa e conseguiu dele o lugar do superior que o protegera. Com o novo salário Felipe Dionísio Prestes pode então realizar seu sonho de fazer doutorado. Hoje seus feitos são conhecidos em todo lugar e por onde passa é saudado por todos exatamente como o que está escrito na porta de seu escritório: “Dr. F.D.P.”

*qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Acorde


Eu sinto esse acorde.
Eu sinto esse acorde como sinto o ultimo suspiro de minha vida.
Alias, é o ultimo suspiro de minha vida. Uma vida dedicada às artes, uma vida dedicada a musica, uma vida dedicada a não ser apenas minha, mas de todos! Fiz tudo para que o que eu fizesse não agradasse apenas a mim, mas um mundo ao meu redor. Para uma festa de igreja fervorosa, para uma apresentação de escola animada, para o seleto público dos restaurantes grã-finos. Começa assim, logo vem os grandes shows, os CDs, os prêmios, as parcerias, as músicas de sucesso ... Logo, todos sabem seu nome, todos sabem quem você é, todos querem sua presença, todos querem você bem. Sua presença é ilustre, esperada! Jovens ficam eufóricas quando te vêem, autógrafos, abraços, fotos, algumas juras de amor, muitas risadas. Faz valer a pena todo o trajeto até aqui, o que não é fácil, estudo, treino, estudo, ensaio, estudo, quebrar a cabeça, estudo, começar de novo, estudo, fazer de tudo para dar certo. Então você chega aqui, no estrelato!
É engraçado como você se torna importante de uma hora pra outra, com apenas uma musica, com apenas uma aparição todos sabem seu nome, todos te conhecem, todos já viram seu rosto pelo menos uma vez. É engraçado os jantares em sua homenagem, é engraçado os prêmios que você recebe, muitas vezes sem nem saber o porquê, as vezes, o premio vem da sua música mais sem inspiração, a música mais improvisada que você criou por falta de uma ideia boa.
E aqui estou eu hoje, sozinho, deitado na minha cama, ninguém mais se lembra quem eu sou, ou quem eu fui. Ouvem minha musica e perguntam: “Será que ele está vivo ainda?”, mas se esquecem de perguntar pra mim qual a minha inspiração no momento da musica, esquecem-se de ver que a pessoa por traz daquilo tem uma vida. Bom, estava tendo até esse momento, fecho meus olhos, respiro pela ultima vez, sinto o ultimo acorde, a ultima nota que o coração toca; e assim, o Brasil perdeu um de seus grandes nomes da música.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A flor


O tribunal estava lotado, todos com caras de ódio observando àquela que tinha cometido tão grave crime.
A promotoria se esforçava em demonstrar a gravidade do ato cometido e a defesa em explicar que o ilícito era apenas uma tentativa de imprimir o lúdico a pessoas tão desprovidas de beleza em seu dia a dia.
As senhoras mais exaltadas ressaltavam a importância de uma punição severa que demonstrasse que tal atitude jamais seria tolerada naquela cidade, seria uma maneira de mostrar a todos que por ali passassem, que ali era um local onde a família era respeitada e que qualquer um que tentasse repetir aquela condenável atitude teria o mesmo destino.
Testemunhas detalhavam enfaticamente o ocorrido e tentavam demonstrar o quanto aquilo era inescrupuloso e que a ré não demonstrava o menor remorso pelo crime cometido. Ela por sua vez parecia estar em outro planeta observando a arquitetura do lugar, hora assustada, hora achando engraçado a ênfase na fala daquelas pessoas.
Então o juiz chamou a criminosa ao banco das testemunhas para dar a sua declaração, o advogado de defesa protestou, mas foi inevitável.
O promotor logo perguntou o porquê de tal ato e a garota respondeu que todos pareciam tão sérios e bravos naquela cidade, que ela pensou que pintar uma flor na calçada talvez arrancasse alguns sorrisos e melhorasse a vida dos que ali viviam. Uma mulher se levantou e disse que pichações não eram aceitas por ali e que este tipo de ato devia ser enfaticamente reprimido, pois mesmo que por um motivo nobre, não reprimi-lo seria automaticamente dar um recado a outros pichadores de que poderiam se safar.
A garota então disse que não esperava que todos se irritassem daquela maneira e que se seu desenho era tão ofensivo ela mesma o limparia. Ela ainda citou que havia se mudado recentemente, mas achava que as pessoas daquele lugar precisavam de mais amor pois estavam o tempo todo preocupadas com a aparência de suas casas e se esqueciam de dar valor as pessoas, que são a única coisa que realmente importa. Terminado de dizer isto ela deu uma rosa ao promotor e um beijo em sua bochecha, pediu desculpas e prometeu não mais repetir sua atitude tão desprezível.
O juiz se emocionou com o depoimento e decidiu inocentar a garota de 3 anos que tinha cometido o grave crime de pintar uma flor na calçada com seu giz de cera e por tal motivo irritado os habitantes daquela pequena cidade ao sul da Califórnia.

sábado, 5 de maio de 2012

A Menina e o Bonsai

A menina foi levada para comprar seu primeiro cachorro, os pais acharam que como toda criança Ane merecia ter um amiguinho e ela realmente queria, mas antes de sair de casa sua mãe roubou um pouco da infância dela.
Ela disse que Ane iria ganhar um cachorrinho, mas não seria uma coisa só boa, seria uma coisa ruim e ela não gostaria de sair de casa na chuva para ver se não faltava algo para o cachorro ou de ser suja por ele quando iria sair para passear. A mãe de Ane teve a capacidade de dizer pra ela que um dia o cachorro ia morrer e todo amor que ela depositasse no cachorro iria se transformar em dor e ela a carregaria para o resto da vida.
Ane já saiu de casa esperando para encontrar com o bichinho que iria fazer com que ela sofresse para sempre. Antes do carro começar a andar ela teve uma ideia: "eu vou comprar uma árvore, ouvi dizer que elas duram centenas de anos, ela viveria mais e o sofrimento seria dela".
Virou para a mãe e disse que não queria mais o cachorro, queria uma árvore, a mãe estranhou, disse que queria saber o porque e a menina pensou que sua mãe só podia estar brincando já que ela mesma à havia prevenido do mal que seria ter um cachorro. Depois de conversarem um pouco chegaram a conclusão de que a única árvore que ela poderia ter seria um bonsai. Quando chegaram à loja, ela foi olhando os bonsais e pensou: "pegarei um bem novo, assim ele será criança como eu", ela se ajoelhou na frente do mais barato de todos e disse:
- É esse aqui!
Seus pais disseram que sim e ela falou no canto do ouvido do bonsai:
- Terás que ser um grande amigo, pois será meu amigo a vida inteira.
Não se sabe se aquele bonsai era especial ou aquelas palavras eram mágicas, o que se sabe é que ele abriu os olhos e fez o sorriso que qualquer pessoa que ouvisse isto faria, mas fechou rápido, pensou que os amigos já tem que ser amigos pra quererem ser amigos pra sempre. Mesmo assim gostou muito de ouvir aquilo porque de algum modo pessoas  passavam por uma vida inteira sem ouvir essas lindas palavras.
Ela o levou na mão e toda vez que ele espiava estava ela a olhar-lo e sorrindo ele pensou: "eu já gostei dela"
Ela o colocou na sala, na única janela da casa que recebia as primeiras luzes do dia. Durante toda primavera ela deu a ele todo o carinho do mundo e veio o verão e no final do verão ele decidiu que ia falar com ela, afinal, ela poderia saber que ele não era uma árvore normal.
Enquanto pensava nisso ele olhou para fora e viu a primeira folha de outono começar a ficar marrom, ele pensou que um dia alguém havia passado por ali e dito que o outono e o inverno serviam para a natureza ficar menos bela e darmos mais atenção às pessoas, ou seja, ela o amaria menos e deixaria de dar-lhe atenção quase meio ano. Então ele começou a pensar no que faria para ela não abandona-lo, pensou em ser uma árvore de frutas, mas lembrou que não podia ser uma já que ele não era uma árvore. Depois pensou que podia ser uma árvore de natal, cheia de luzes, mas ele lembrou que faltava mais de meio ano para o natal, pensou que poderia se fantasiar de palhaço, "No dia em que foram no circo ela voltou muito feliz, sei lá, quem sabe de boneca?  Não, isto não".
Enquanto pensava o dia seguinte foi chegando e ela acordou, olhou para e perguntou ao vê-lo com seus galhos baixos:
- Por que tu ta tão triste?
Ele sem pensar respondeu:
- Acho que não poderei ser um bom amigo no Outono, minhas folhas vão cair e ficarei feio.
Ela nem prestou atenção ao que o bonsai estava falando, só o olhou e disse:
- Que tipo de amiga eu seria se não fosse tua amiga nas épocas que mais vais precisar de mim?
Ele sorriu e os dois seguiram com sua amizade como toda linda amizade deve ser, linda no verão ou no inverno, quando estamos cheios de vida ou meio murchinhos e sem folhas.

Autor: Téo

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Conto Curitibano

A poesia exalava de meus dedos e eu estava no ônibus, como sempre! A cidade era bela, onde houvesse tristeza ali havia uma flor e até onde há guerra ali também há a paz.
Nesta cidade vejo muitos estilos, de tudo um pouco, eu deveria ter dito.
Aqui sempre há um sol, mesmo que fraco para que em nenhuma estação falte um pouco de brilho. Aqui também há chuva, em qualquer lugar, pra que nunca se tenha tanta sede que não se possa saciar.
O frio, pra quem gosta de arrepios e o outono silencioso, pro vento poder escutar.
Nela não se mora, se tem um lar ... geometricamente ela é toda "regular", mas pensou também em todos os momentos que a vida podia causar!
Posto silencio e inquietude, fale apenas se quiser falar e o seu silencio falará pra você bem alto e apenas o vento virá conversar, embora ele também saiba passar morto se assim o desejar.
E se quiseres as árvores também sabem falar.
A Europa brasileira se considera meio alheia mas a música continua.
O clima ao que se der, cabe só a você permanecer de pé.
Sinto muito se encerro aqui o conto, é que acabei de chegar no meu ponto.

domingo, 29 de abril de 2012

Amanda


As estações passam e modificam a vista aos amantes da natureza, mas naquele palacete no batel, a vista era belíssima a qualquer dia do ano. Porém algo estava errado, uma jovem, cansada das desilusões da vida, da rotina, das coisas que fazia e das que deixava de fazer.
Amanda era belíssima, beirava os dezenove anos, tinha tudo que uma garota da sua idade poderia querer, mas algo lhe faltava e naquela tarde, ela estava debruçada no parapeito da enorme sacada de seu quarto com ar de fatigada, parecia uma bela pintura a quem olhava-a de fora. Observava as belas árvores de seu quintal, sem folhas nesta época do ano, imaginando que tipo de sentimento era aquele que tomava conta dela, que ausência estranha lhe corroia por dentro e fazia imaginar o porque de estar ali parada.
Tinha amigas apenas na vizinhança e as saídas ao shopping já não preenchiam mais seu tempo como antes. Amanda queria algo novo, queria um pouco de vida, a vida que não tinha, a vida que via além dos grandes portões da propriedade em que morava, estampada nos rostos das pessoas que passavam na rua, a vida que via nos filmes e novelas da TV, ao invés disto, estava lá, entediada, presa em sua masmorra pessoal sem saber nem mesmo que tipos de sentimentos passavam em seu coração.
A noite reservava um jantar de gala, “mais um jantar enfadonho onde verei as mesmas pessoas dizendo as mesmas coisas de sempre”, inventou uma indisposição e decidiu ficar em casa, já ia se arrumando para dormir quando ouviu uma freada seguida de um estrondo. Foi a sacada observar e viu um veículo todo amassado contra um poste em frente ao palacete, caminhou até o portão mais por curiosidade, já que havia muitas pessoas atendendo o rapaz que parecia não ter se ferido. Ficou ali, observando aquela cena diferente à seu dia e começou a conversar com algumas pessoas,  jovens se preparando para ir a um bar ali perto, que pararam para ver se ninguém havia se ferido. E foi assim, despretensiosamente que a moça que viu uma amiga em Amanda, a convidou para acompanha-los.
A jovem se arrumou depressa e foi de carona no carro da mais nova amiga, não era seu costume sair e tão pouco seus pais permitiriam, mas eles não estavam em casa e ela precisava de um pouco de adrenalina. No bar, a moça se divertiu, sorriu, foi cortejada e chegou a beijar um rapaz, mas tão pouco era aquilo que lhe interessava e logo ela voltou para pista dançar. Permaneceram no local por algumas horas e depois decidiram ir a outro lugar.
Quando já retornavam o carro foi parado por policiais que averiguavam a documentação enquanto Amanda desceu por um momento, nunca tinha visto uma abordagem policial de perto e achou interessante todo aparato utilizado naquela blitz. No carro ao lado, sentado no capo estava um jovem que chamou a atenção dela, ela era uma moça tímida, mas resolveu se aproximar e puxar conversa enquanto aguardavam o termino da averiguação. Trocaram telefones e seguiram cada um seu caminho.
A jovem que dirigia resolveu comprar cigarros e qual foi à surpresa de Amanda ao ver aquele jovem parado no mesmo posto. Enquanto a amiga esperava na fila da loja de conveniências, ela voltou a conversar com o rapaz que aguardava o frentista abastecer.  O dia já começava a amanhecer quando ela chegou em casa, ficou surpresa ao não ver seus pais que chegaram logo depois.
O rapaz ligou no dia seguinte, e no outro, e no outro, até que decidiram finalmente sair. Ela não tinha grandes esperanças de um romance, queria apenas que o momento em que estivesse com ele fosse bom, mas algo tinha mudado dentro dela, uma só noite lhe mostrou que ela poderia fazer diferente e se tornar senhora de sua vida e que a decisão por fazer algo tinha mexido com ela. Amanda já não sentia mais o vazio que tanto a incomodava, agora era apenas ansiedade, mas uma ansiedade boa de não saber o que esta por vir, mas de saber que finalmente, alguma coisa mudou. Também percebeu que cada escolha daquele dia, mesmo as que pareciam tão insignificantes, tinha contribuído para tornar aquela noite única e para lhe mostrar que havia outro caminho, com outras pessoas e que ela seria mais feliz, se ela se permitisse viver.

sábado, 28 de abril de 2012

A parede torta!

Em 1980 um famoso médico americano foi trabalhar em um vilarejo ao sul da Prússia. Ele queria ajudar algumas pessoas em uma terra isolada e carente de recursos da medicina, queria também ensinar um pouco do que sabia e aquele lugar formado de pessoas simples parecia o ideal.
Hank acordava às quatro da manhã, quando todos ainda estavam dormindo e fazia silencioso a caminhada até o consultório que ficava no outro lado da vila. Fazia sempre o mesmo caminho e sempre andava sozinho. A cabeça do médico estava o tempo todo nas consultas a realizar e nas possíveis curas de pacientes que o tinham como ultima esperança, pensava também que ainda não tinha conseguido ensinar nada a ninguém e já estava ali há dois meses.
Foi um tropeção que mudou seu destino, uma pedra qualquer mal posicionada, Hank nem chegou a cair, mas voltou a realidade. Percebeu que tinha que prestar mais atenção ao caminho e acabou por notar a beleza e simplicidade das construções daquele lugar, todas sem muros nem cercas inspirando liberdade e mostrando a confiança daqueles cidadãos em seu próprio povo.
Havia uma bela casa, tinha ares de ter pertencido a alguma família grande, a madeira estava um pouco envelhecida e a tinta já sentia os efeitos da exposição constante ao sol. Na parede da sacada havia um quadro com uma foto em preto e branco emoldurada de uma bela mulher que aparentava seus vinte anos.
O fato é que Hank era metódico, aquele quadro estava torto e ele desviou seu caminho para consertar a posição. Subiu devagar os três degraus da entrada, a madeira já desacostumada a visitas rangeu quando ele pisou sobre ela. O médico pôs o quadro no lugar e seguiu seu caminho.
Chegou ao consultório satisfeito com a façanha que havia realizado. Quando passava em direção a sua casa para almoçar, percebeu o quadro novamente torto e novamente arrumou a posição do quadro, na volta ao consultório a cena inusitada se repetiu e na volta para casa a mesma coisa. Hank era insistente e todos os dias arrumava a posição do quadro nas quatro ocasiões em que passava por ele, até que decidiu descobrir quem deixava aquele quadro torto. Arrumou a posição do quadro e ficou a espreita, um casal passava pelo local percebeu o quadro simetricamente bem ajustado e o rapaz logo alterou a posição para que ficasse torto. E assim se seguiu o dia todo, o Dr. arrumava o quadro, se escondia e o primeiro que passava percebia e “arrumava” para que ficasse novamente torto. A certa altura decidiu perguntar a alguém se não achava estranho o quadro estar torto e a única resposta que recebeu foi a de que não era o quadro que estava torto e sim a parede. Aquilo o intrigava cada vez mais, não adiantava arrumar o quadro e não adiantava perguntar por que o quadro estava torto, pois aquela cidade parecia simplesmente não ver isto. A resposta de todos era de que a parede é quem estava torta.
Hank voltou a se dedicar as suas atividades no hospital, sem deixar de arrumar o quadro toda vez que passava por ele, achava que um dia as pessoas perceberiam que a parede estava perfeita e que o correto era ajusta-lo simetricamente a ela.
Havia uma idosa na fila para se consultar, não estava tão mal, apenas tinha idade avançada e ele receitou alguns remédios a ela, na hora de sair ela se voltou para ele e disse:
- É o Sr. quem tem deixado o quadro torto, não é?
- Pelo contrário, eu tenho arrumado a posição dele, mas já que a senhora mencionou, poderia me explicar o porquê de todos acharem que a parede esta torta?
-Claro, mas a história é comprida.
- Tenho tempo.
- Lembro como se fosse ontem, naquela época não era fácil ter uma fotografia, não era como estas máquinas modernas com estes filmes que é só revelar, era caro e precisava de um fotografo e algumas horas parada na mesma posição. Ivana era uma moça bonita e muito cobiçada, Dimitri a conquistou com seus versos e construiu aquela casa com a ajuda de seus irmãos, morava pouca gente por aqui. Ele era tão apaixonado que quando o fotógrafo chegou ao vilarejo ele vendeu algumas joias que eram herança de seus pais e usou tudo para ter uma foto dela, algum tempo depois nasceu Ivanovski e quando a felicidade do casal parecia completa quis Deus que ela adoecesse e de súbito partisse deste mundo. Dimitri ficou muito entristecido e pendurou a foto na sacada onde costumava ficar admirando-a, ele costumava dizer a quem perguntasse que uma obra de arte como aquela merecia ser admirada por todos e por isto não seria justo pendura-la na sala. O garoto crescia indiferente a dor do pai, era pequeno demais quando a mãe morreu. Dimitri sempre reclamava quando ele jogava bola em frente de casa, pois poderia acertar o quadro, mas o garoto achava que não havia gol melhor que as vigas daquela sacada. Acontece que o garoto sabia como dobrar o pai e um dia enquanto ele escrevia, Ivanovski e um colega jogavam bola usando a sacada como gol, o garoto errou o chute e acertou próximo ao quadro que entortou com o impacto. Dimitri saiu irritado aos berros dizendo que já tinha avisado que ali não era lugar, mas o garoto disse que não estava jogando bola e quando ele indagou sobre o porquê de o quadro estar torto o garoto respondeu: “Não é o quadro que está torto, é a parede que está. Quando o senhor estava lá dentro estava certinho, mas agora que esta na porta desequilibrou o peso sobre a casa e ela entortou fazendo parecer que o quadro está torto, quando na verdade foi a parede que entortou”. O senhor consegue imaginar um garoto de seis anos criando uma história dessas do nada?
- Bem criativo mesmo, mas isto fez a cidade toda manter a história do garoto?
- Claro que não Sr Hank, acontece que o garoto cresceu e se tornou um dos jovens mais importantes da região, ajudava com tudo que podia, se alguém tinha dúvidas na escola ele fazia uma aula de reforço, se faltava mão de obra na colheita ele estava lá, se alguém precisava construir podia contar com ele e ele nunca pedia nada em troca. Só que veio a guerra e Ivanovski não voltou, a tristeza foi de todos, Dimitri entortou o quadro e contou a história no velório do garoto. Quando ele morreu há dez anos a casa ficou vazia, mas os habitantes do vilarejo ajudaram a conserva-la bem cuidada e mantiveram a tradição em memória a três pessoas tão fantásticas que fizeram parte da nossa história.
Hank estava emocionado, nunca mais mexeu com o quadro e passou a entender a fixação daquele lugar, percebeu que algumas coisas parecem erradas àqueles que utilizam o prisma errado e que tentara mudar a cultura de um povo ao invés de entendê-la e se adequar a ela. No fim, percebeu que a parede estava torta simplesmente porque o vilarejo queria que estivesse e que se ele achava que não estava era ele o insano.
Foram mais quatro meses de trabalho e ele iria voltar à Nova York em duas semanas, seu substituto veio conhecer o lugar e quando o acompanhava percebeu aquela casa que destoava das demais.
- Esta casa é mais antiga que as outras.
- Verdade.
- Estranho ninguém arrumar a posição daquele quadro, não consigo observa-lo assim sem me incomodar.
- Mike, sinto lhe dizer, mas não é o quadro que está torto, é a parede que está!

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Cabral-Portão 18:30

Paulo pegou o Cabral-Portão às 18:30 lotado como sempre, ele se perguntou como tinha um lugar vago a direita do cobrador, se sentou, estava sem mp3 e sem nada para ler então ficou lá, olhando para fora esperando chegar ao Cabral. Enquanto esperava ele viu o motorista resmungando, ficou ali analisando aquele senhor nos seus cinquenta e tantos anos com um bonezinho de pelo menos dez e uma aparência terna e carinhosa, mas ele resmungava.
Não era seu feitio se meter na vida dos outros, mas foi quase automático quando ele perguntou ao motorista:
- E ai meu velho, o que ta te incomodando?
- Nossa cara, eu não sou de me irritar mas tem um piá que ta me tirando do sério, você acredita que o moleque me espera todo dia e quando eu vou passar pelo semáforo ele aperta o botão do pedestre e passa bem devagar na minha frente e fica rindo da minha cara.
- Mas que bobagem. A quanto tempo ele vem fazendo isto?
- 3 semanas, 3 semanas, 3 SE-MA-NAS!
- É, acho que poderia me irritar também.

Foi exatamente neste momento que ele viu o garoto, devia ter uns 10 ou 11 anos e puxava um carrinho de carregar papelão, ele estava lá, esperando o sinal. Faltando uma quadra e meia ele apertou o botão, o sinal fechou e ele começou a sorrir e passar lentamente na frente do ônibus mas desta vez o motorista desceu, o piá não sabia o que fazer, tinha medo do motorista mas tinha medo de perder o carrinho. Ele ficou parado até o motorista começar a sacudi-lo pelos ombros dizendo:
- E agora moleque? Agora tu vai tomar uns cascudos, porque vem fazendo isso hein? Porque decidiu me incomodar? Fala pirralho, antes que eu te esfole.
Foi então que o menino começou a falar e o motorista a mudar de feição:
- Desculpa tio, mas eu passo por aqui à meses e nesses meses todos sempre que eu passo, eu vejo aquela menina lá – o motorista olhou para a sacada que o menino apontava e nela estava uma menina também nos seus dez, onze anos nervosa e preocupada vendo o que estava acontecendo, mas o que mais o impressionou foi que a guria estava numa cadeira de rodas, então voltou seu olhar para o guri  e continuou - e ela nunca ri, só fica lá parada e desde que eu comecei a incomodar o senhor  ela sempre ri e eu não sei porque, mas eu gosto quando ela ri.
Ele largou o guri e entrou no ônibus, dirigiu até o Cabral e lá Paulo desceu, sem perguntar nada pois quando correu pra janela ele viu e ouviu tudo que aconteceu.
Mas no dia seguinte ele passou o dia esperando chegar as 18:30 e quando chegou, ficou lá esperando pra ver e foi como ele imaginou, o guri estava lá, parou o ônibus e ficou rindo do motorista que colocou a cabeça pra fora da janela e o ameaçou, o xingou e olhou pra menina da sacada rindo e voltou pra dentro do ônibus sorrindo, Paulo também sorriu.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Quem não sabe rezar?

Me deparei com este conto em um blog e achei muito bom.
Original: http://ocaminhodeumperegrino.blogspot.com.br/2012/03/quem-nao-sabe-rezar.html

Na cidade de Berditchev, vivia o grande rabino Levi Yitzchak. Segundo o costume local, em Yom Kipur o Rabi Levi Ytzchak seria o chazan (condutor da reza) em Mussaf. No grande dia, toda a comunidade de Berditchev estava reunida na sinagoga e, depois de toda a noite rezando, e de manhã, todos esperavam o tão respeitado rabino.

Chegada a hora, ele não assumiu a sua habitual posição de chazan na reza de Mussaf. As pessoas começaram a ficar impacientes. O tempo passa e o Rabi ali, de olhos fechados e sem se mover. Todos estavam ficando nervosos, afinal já haviam rezado muito e estavam sem comer há tantas horas. De repente o Rabino levanta-se e declara:

- Agora estou pronto para ser o chazan. Esperei até agora, porque tinha um judeu muito simples entre nós que não sabe rezar, nem ler. Então, ele disse para D'us: 'Eu não sei nem rezar nem ler, mas uma coisa eu sei: o alfabeto hebraico. Então irei repeti-lo várias vezes e Você, D'us, junte as letras do jeito que quiser.' Eu estava esperando D'us juntar as letras”.
Autor : Rabino Daniel Segal