quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Felipe Dionísio Prestes


Em uma distinta cidade ao sul do país morava um jovem chamado Felipe Dionísio Prestes. Ele tinha vontade de realizar grandes feitos, o que demandava muito conhecimento e tempo. Porém o rapaz era apressado e esperava conquistar tudo o mais rápido possível.
Nosso obstinado jovem entrou para uma firma que realizava projetos de reparos que eram importantes para pequenas empresas e passou a ser o segundo setor, recebendo os projetos que vinham da recepção e decidindo se realizava ele mesmo o reparo necessário ou se repassaria aos arquitetos para realizarem o serviço. Ele ganharia uma quantia por cada projeto feito e logo no primeiro mês passou a realizar três vezes mais projetos que os seus companheiros de serviço. Seus companheiros que realizavam em média 10 projetos ao dia se viram desconfiados quando aquele jovem, recém chegado, passou a realizar 30 projetos no mesmo tempo. Um dia as canetas sumiram e só foram compradas novas no final do expediente, os colegas, desanimados, realizaram 3 ou 4 projetos com muito esforço, ainda assim, Felipe Dionísio Prestes conseguiu a impressionante marca de 23 projetos.
Um dia, um dos colegas do rapaz descobriu um projeto que havia sido dado como encerrado por ele sem alterações e no mesmo dia ainda encontrou outro. A notícia se espalhou, o paladino estava encerrando projetos sem ao menos realizar as alterações necessárias, no mesmo dia uma das moças da recepção veio à um superior dele e trouxe uma pilha de projetos não alterados que os clientes tinham devolvido para que fossem desta vez realizados corretamente. Ela apontou a assinatura de Felipe Dionísio Prestes e citou que o jovem era um irresponsável.
Conforme as especulações cresciam, o rapaz se sentia cada vez mais ofendido, ele vociferou à todos que não havia realizado nenhum processo fora do padrão. Então, todos que falaram contra o rapaz foram chamados à uma reunião onde o superior citou a eles que deveriam se espelhar nele para realizar os projetos pois a empresa também recebia por projeto realizado e ele por consequência, citou que o rapaz estava certo e que nenhum procedimento fôra realizado fora do padrão.
O jovem obstinado logo foi promovido após premiação por seu serviço inigualável e, assim que pode, conheceu o proprietário da empresa e conseguiu dele o lugar do superior que o protegera. Com o novo salário Felipe Dionísio Prestes pode então realizar seu sonho de fazer doutorado. Hoje seus feitos são conhecidos em todo lugar e por onde passa é saudado por todos exatamente como o que está escrito na porta de seu escritório: “Dr. F.D.P.”

*qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência

domingo, 16 de setembro de 2012

A tarde

Era 15 hs, o sol escaldante impetuoso gerava um calor quase insuportável. Faltava ar, mas ele estava lá, com um imenso frio na barriga, com a ansiedade que só ela poderia lhe causar. É dia dela, e ele tentou observar com cuidado cada detalhe do que havia preparado embora soubesse que alguns detalhes ele iria esquecer. Tentou preparar a perfeição, mesclada com à simplicidade.
Alguns planos não são simples e sempre há imprevistos no caminho. A chegada dela foi um alento ao seu coração que batia rapidamente e ansioso. O beijo quente que deram selou o desejo contido em ambos de tornarem aquilo realidade. A tarde passava e eles abraçados hora conversavam, hora percorriam com desejo o corpo um do outro. Nada os atrapalharia simplesmente porque não havia nenhum outro lugar onde quisessem estar.
Ela tinha medo de se entregar ao sentimento, mas seus olhos enquanto ele a beijava, já mostravam-na entregue. Ele estava feliz em tê-la em seus braços pela primeira vez, não havia nada que ele quisesse mais que aquilo.
O tempo passa depressa quando se está imerso em felicidade e mais rápido do que podiam imaginar a noite veio e ela precisava partir. Ele a acompanhou tentando prolongar um pouco mais a estada ao lado dela, queria que ela não fosse, mas era necessário. Despediram-se com um beijo e um abraço demorado, sentindo um o coração do outro. Ela saiu caminhando, mas antes que ele não pudesse mais vê-la, ela mandou-lhe um beijo e sorriu com aquele sorriso que o fazia achar que o mundo era um lugar perfeito.
Ele veio calado o caminho de volta, pensando nela, saboreando em si cada momento vivido naquela tarde inigualável. Como são as coisas do coração, não se sabe o que vem amanhã, só que o hoje foi maravilhoso e que a presença dela faz os dias dele serem melhores.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

O Acorde


Eu sinto esse acorde.
Eu sinto esse acorde como sinto o ultimo suspiro de minha vida.
Alias, é o ultimo suspiro de minha vida. Uma vida dedicada às artes, uma vida dedicada a musica, uma vida dedicada a não ser apenas minha, mas de todos! Fiz tudo para que o que eu fizesse não agradasse apenas a mim, mas um mundo ao meu redor. Para uma festa de igreja fervorosa, para uma apresentação de escola animada, para o seleto público dos restaurantes grã-finos. Começa assim, logo vem os grandes shows, os CDs, os prêmios, as parcerias, as músicas de sucesso ... Logo, todos sabem seu nome, todos sabem quem você é, todos querem sua presença, todos querem você bem. Sua presença é ilustre, esperada! Jovens ficam eufóricas quando te vêem, autógrafos, abraços, fotos, algumas juras de amor, muitas risadas. Faz valer a pena todo o trajeto até aqui, o que não é fácil, estudo, treino, estudo, ensaio, estudo, quebrar a cabeça, estudo, começar de novo, estudo, fazer de tudo para dar certo. Então você chega aqui, no estrelato!
É engraçado como você se torna importante de uma hora pra outra, com apenas uma musica, com apenas uma aparição todos sabem seu nome, todos te conhecem, todos já viram seu rosto pelo menos uma vez. É engraçado os jantares em sua homenagem, é engraçado os prêmios que você recebe, muitas vezes sem nem saber o porquê, as vezes, o premio vem da sua música mais sem inspiração, a música mais improvisada que você criou por falta de uma ideia boa.
E aqui estou eu hoje, sozinho, deitado na minha cama, ninguém mais se lembra quem eu sou, ou quem eu fui. Ouvem minha musica e perguntam: “Será que ele está vivo ainda?”, mas se esquecem de perguntar pra mim qual a minha inspiração no momento da musica, esquecem-se de ver que a pessoa por traz daquilo tem uma vida. Bom, estava tendo até esse momento, fecho meus olhos, respiro pela ultima vez, sinto o ultimo acorde, a ultima nota que o coração toca; e assim, o Brasil perdeu um de seus grandes nomes da música.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Castelo de Supplice

A escuridão tomava conta da pequena aldeia de supplice, a única luz vinha da fogueira em torno da qual todos dançavam. O clima festivo se dava pela boa colheita obtida aquele ano, o vinho era servido em abundância e a comida era farta.
Entre uma dança e outra, ouviu-se o som de um sino tocado ao longe, vindo do alto de um morro onde quase imperceptível jazia um castelo. A feição de todos se tornava mais tensa a cada nova badalada, todos correram, fecharam as portas e se esconderam aonde era possível; ao longe se ouviu um grito seguido de um rosnado ameaçador, então o silêncio e o som do mastigar de um animal. Quando o dia amanheceu fez-se a contagem dos sobreviventes, a família do morto estava desconsolada, mas sabia que nada era capaz de mudar o que havia acontecido. Hamilton, um jovem inglês que estava no local a passeio, tentou entender o que se passava e porque não havia uma reunião de homens corajosos para ir a caça do animal. Um dos anciãos contou-lhe que por vários anos tentaram e nenhum homem voltou com vida das expedições, até que um dia, quando a aldeia estava quase dizimada, o estranho morador do castelo acabou domesticando o animal. As vezes ele escapava e era isto que acontecia, mas desde então as mortes eram muito poucas e conformar-se com a própria sorte era o que de melhor se podia fazer. O animal sempre sabia quem era a vitima da vez e não havia porta capaz de detê-lo.
Hamilton não concordava, pois de onde vinha os problemas exigiam solução e por isto mesmo decidiu-se por ir até o castelo enfrentar tal criatura e libertar o povoado. O ancião alertou-lhe que não seria uma boa ideia, mas ele não deu ouvidos e seguiu.
O sol estava alto no céu quando ele chegou aos grandes portões da propriedade, um dos lados estava caído o que deixava livre a passagem de quem ali chegasse. Pensou que era natural que o animal escapasse com tamanho descuido, tentou observar pelas janelas para dentro do castelo que mais parecia uma ruína sem vida, mas nada pôde enxergar. Puxou as pesadas argolas de ferro que estavam penduradas na porta e soltou-as. O barulho do ferro batendo na madeira foi seguido por um latido forte e pela voz de um homem que pedia calma ao animal.
- Perdoe-me a demora, meu cão estava um pouco agitado e precisei conte-lo. Diga-me! Em que posso ajuda-lo?
- Sou Hamilton, comerciante inglês, estava na aldeia ontem a noite.
- Imagino que não tenha sido uma experiência agradável.
- Não, e vim aqui para libertar aquele povo.
- Você não sabe o que diz, vamos, pare com esta besteira enquanto ainda está vivo.
- Um animal não pode fazer o que bem entender, e se você não pode conte-lo darei um jeito eu mesmo.
- Ninguém pode conte-lo, nem mesmo eu. O ódio só o torna mais forte e é por isto que o mantenho aqui o máximo possível, pois nem eu nem ele encontramos motivos para ódio isolados aqui.
- Não entendo.
- Todas as expedições falharam porque não o entendiam, eram compostas por homens cheios de ódio em seus corações, ele os sente e se alimenta deles. Sua força que já é gigantesca aumenta mais toda vez que sente o ódio em alguém. Então o encontrei na mata, não o conhecia, não sabia de seus atos, apenas cuidei de algumas feridas e ele passou a me seguir, desde então parou de atacar o povoado. Demorou muito até eu perceber que nenhum muro poderia conte-lo, então guardei minhas lembranças em um baú velho, pois percebi que ele ficava mais agitado conforme eu me exaltava pelos sentimentos que aquilo trazia e que ter as lembranças à mão era uma maneira de liberta-lo. Notei que ele só sai quando sente que há alguém tomado de ódio nas redondezas, Então pus um sino no castelo, para avisar aos moradores quando ele sai daqui, muito embora não haja nada que possa ser feito.
- Eu o farei - bradou Hamilton - onde ele esta?

Então o animal pulou por detrás da escada que levava ao segundo piso, o senhor do castelo tentava acalma-lo enquanto o ódio nos olhos de Hamilton era substituído pelo medo, num descuido, o homem se desvencilhou e correu o quanto pode, até desaparecer daquelas terras. O animal, em parte contido pelo seu bem feitor, em parte por não suportar a presença do medo desistiu de atacar o viajante.
Por todo lugar onde passava, Hamilton contava a história da feroz criatura que vivia escondida em um castelo e se alimentava do ódio das pessoas, um ser tão terrível que não podia ser contido, somente respeitado, pois na presença de um sentimento tão destrutivo ele se libertava e tornava-se ele mesmo a destruição.

by Arthur Lingard

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A flor


O tribunal estava lotado, todos com caras de ódio observando àquela que tinha cometido tão grave crime.
A promotoria se esforçava em demonstrar a gravidade do ato cometido e a defesa em explicar que o ilícito era apenas uma tentativa de imprimir o lúdico a pessoas tão desprovidas de beleza em seu dia a dia.
As senhoras mais exaltadas ressaltavam a importância de uma punição severa que demonstrasse que tal atitude jamais seria tolerada naquela cidade, seria uma maneira de mostrar a todos que por ali passassem, que ali era um local onde a família era respeitada e que qualquer um que tentasse repetir aquela condenável atitude teria o mesmo destino.
Testemunhas detalhavam enfaticamente o ocorrido e tentavam demonstrar o quanto aquilo era inescrupuloso e que a ré não demonstrava o menor remorso pelo crime cometido. Ela por sua vez parecia estar em outro planeta observando a arquitetura do lugar, hora assustada, hora achando engraçado a ênfase na fala daquelas pessoas.
Então o juiz chamou a criminosa ao banco das testemunhas para dar a sua declaração, o advogado de defesa protestou, mas foi inevitável.
O promotor logo perguntou o porquê de tal ato e a garota respondeu que todos pareciam tão sérios e bravos naquela cidade, que ela pensou que pintar uma flor na calçada talvez arrancasse alguns sorrisos e melhorasse a vida dos que ali viviam. Uma mulher se levantou e disse que pichações não eram aceitas por ali e que este tipo de ato devia ser enfaticamente reprimido, pois mesmo que por um motivo nobre, não reprimi-lo seria automaticamente dar um recado a outros pichadores de que poderiam se safar.
A garota então disse que não esperava que todos se irritassem daquela maneira e que se seu desenho era tão ofensivo ela mesma o limparia. Ela ainda citou que havia se mudado recentemente, mas achava que as pessoas daquele lugar precisavam de mais amor pois estavam o tempo todo preocupadas com a aparência de suas casas e se esqueciam de dar valor as pessoas, que são a única coisa que realmente importa. Terminado de dizer isto ela deu uma rosa ao promotor e um beijo em sua bochecha, pediu desculpas e prometeu não mais repetir sua atitude tão desprezível.
O juiz se emocionou com o depoimento e decidiu inocentar a garota de 3 anos que tinha cometido o grave crime de pintar uma flor na calçada com seu giz de cera e por tal motivo irritado os habitantes daquela pequena cidade ao sul da Califórnia.

domingo, 27 de maio de 2012

A Ilha dos Sentimentos - de Sílvio Anjo.

Era uma vez uma Ilha onde moravam todos os sentimentos:
a Alegria, a Tristeza, a Vaidade, a Sabedoria, o Amor e outros ...
Um dia avisaram aos moradores da Ilha que ela seria inundada. Apavorado, o Amor cuidou para que todos os sentimentos se salvassem.
Ele disse:
- Fujam! A Ilha será inundada!
Todos correram e pegaram os barquinhos para irem até um morro bem alto. Só o amor não se apressou, amava a Ilha e queria ficar um pouco mais ... quando já estava se afogando, o Amor gritou aos outros sentimentos clamando por socorro.
Vinha vindo a riqueza e ele disse:
- Riqueza me leva com você?
– Não posso, meu barco está cheio de prata e ouro, aqui não tem espaço para mais nada!
Passou a Vaidade e o Amor novamente gritou:
- Vaidade, posso ir com você?
– Não, você vai sujar meu barco novo!
Passou a Tristeza e mais uma vez o Amor clamou:
- Me leva com você?
– Até queria te salvar e te levar comigo para um porto seguro, mas estou tão triste que meu barco está cheio de lágrimas, não cabe você!
Passou a Alegria, mas ela estava tão feliz que nem ouviu o Amor gritar. Já desesperado e achando que iria ficar só, o amor começou a chorar. Passou a sabedoria e viu o amor chorando.
– Amor não fique assim ... Não se desespere, meu barco está cheio de livros, mas ainda tem o barco da esperança, acredite nas palavras da Sabedoria, a esperança te salvará!
Então passou um velhinho olhando e falou:
- Sobe Amor ... eu te levo!
O Amor ficou tão radiante que esqueceu de perguntar o nome do velhinho! Por fim, chegando no morro alto, o amor encontrou a Sabedoria e perguntou-lhe:
- Aquele velhinho que me trouxe até aqui são e salvo? Era a esperança?
– Era o Tempo! - Respondeu a Sabedoria.
-O Tempo? Mas por que só o tempo me trouxe até aqui? E a esperança? A esperança não pode morrer!
A Sabedoria respondeu:
- O tempo te salvou, mas usando o barco da esperança, a esperança está viva dentro de ti, mas só o tempo é capaz de reconhecer um grande Amor!

Texto Original: http://semtalentoparanada.blogspot.com.br/2011/12/verdadeira-historia-dos-sentimentos.html

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A construção

Havia uma família que tinha uma bela casa, cada tijolo havia sido colocado com muito cuidado e cada passo da construção estava guardado ainda na memória!
Adoravam a sua localização, tinham alguns problemas de umidade, precisavam de mais um quarto, mas gostavam tanto daquela casa que não conseguiam fazer as reformar com medo de mudar a história da construção daquele lugar obtida com tanta luta.
Vieram as chuvas algumas arvores caíram sobre a casa. Técnicos vieram analisar a construção e constataram que era hora de demolir a casa, pois não resistiria muito tempo. A família viu ruir seu sonho com profunda tristeza e houve muito choro. A dor era imensa, pois as memórias estavam ainda postas dentro deles.
Após perceberem que era inevitável, a família finalmente cedeu e a casa foi enfim derrubada ... era o fim de um sonho, era pior que a morte! Tinham para onde ir mas permaneceram acampados ali, olhando a ruína do que sobrou de seus sonhos,   parecia que queriam protelar o martírio que lhes consumia.
Após um tempo de luto remoendo a dor e relutando em mudar-se, alguns vizinhos se compadeceram e decidiram ajuda-los com materiais e mão de obra. Estar no terreno lhes trazia boas lembranças e dia a dia, tijolo por tijolo, foi sendo construída uma nova habitação, que levava todas as boas experiencias vivenciadas na antiga casa, somadas as experiências novas que viviam ali, na nova construção.
A casa foi erguida melhor e mais moderna, mais adequada as novas necessidades deles, pois agora os moradores conheciam os pontos que mereciam cuidado, os que precisavam de mudança e poderiam finalmente fazer as melhorias necessárias.
Ao final da construção, perceberam que haviam feito uma casa muito mais forte e muito mais bela do que já haviam sonhado em ter e que agora viveriam confortavelmente em um lugar que não iria mais ruir.
Perceberam que as vezes a gente se agarra ao passado e aos sonhos que almejou e se esquece de olhar para o futuro e adaptar nossos sonhos permitindo que algo novo preencha-nos com os ventos bons da mudança. A história precisa ser respeitada, mas até uma tragédia as vezes é necessária para nos fazer seguir em frente, rumo ao que está preparado para nós.

sábado, 5 de maio de 2012

O Reencontro.

Ele se aproximou devagar, há tempos que não se viam e teve medo da reação dela. Ficou um tempo observando ao longe, na verdade ele a admirava. "Há quanto tempo não a vejo? E ela está ainda mais linda".
Eram o casal mais apaixonado que alguém podia conhecer, mas ela recebeu um convite para estudar no exterior. Com muito custo a convenceram de que seria bom para ela e durante todo este tempo ambos ficaram separados, conversando pelos meios eletrônicos a que tinham acesso.
A correria do dia a dia fez com que os contatos fossem cada vez menos frequentes e ela teve dúvidas, sentiu carência e se permitiu namorar um outro rapaz.
Ambos concordaram que era melhor a liberdade que a mentira, então ele também viveu sua vida, mas nem por um instante deixaram de lembrar um do outro. Ela o esperava ansiosamente, tinha passado todos estes meses imaginado este momento.
Demorou a perceber que ao longe naquele terminal, ele a observava. Quando ele se aproximou, caminhava olhando-a fixamente, tentando intuir que pensamentos passavam por sua cabeça naquele momento somente lendo-os em seu olhar. Ela por sua vez não sabia o que fazer com as mãos, estava sem jeito até para ficar parada, imaginava de que maneira iria cumprimenta-lo. "Melhor esperar e ver o que ele faz". 
Quando ele finalmente se aproximou, ela abaixou levemente o rosto com ar de quem espera a aproximação, ele acariciou seus belos cabelos com a mão direita e se permitiu afagar-lhe o rosto. Ela levantou o ombro pra perto do rosto, pressionando a mão dele, como quem quer aproveitar um pouco mais daquele instante único de um carinho sem igual.
Ele a olhava nos olhos e via neles um brilho único, brilho que ele não via em nenhuma outra mulher. Escorregou a mão direita para a nuca dela, aproximou seus lábios lentamente e a beijou devagar, conforme ela se soltava ele a puxava um pouco mais para perto, como quem quer sentir alguém com mais intensidade. Neste momento os dois puderam sentir a adrenalina que corria seus corpos e aumentava a intensidade do beijo, aquela que poucas pessoas são capazes de provocar.
Seguiram abraçados, sentindo em si o coração do outro, trocando juras de amor ali, naquele terminal, por um bom tempo. Ela dizia que não iria mais ficar longe dele e ele falava para ela sobre o quanto a amava e sentira sua falta.
Aos passantes as reações eram imprevisíveis, alguns se indignavam com a cena que viam, outros olhavam com desejo e havia ainda aqueles que sorriam com os olhos ao ver um amor verdadeiro em um mundo tão cheio de amores de brinquedo.
Eles teriam um dia atarefado até que chegasse a noite e pudessem finalmente matar a saudade que os consumia, mesmo assim pareciam querer prolongar mais e mais aquele instante que preenchia seus corações tão cansados da dor da ausência, ausência esta, que só conhece aquele que sabe quem é este tal de amor.

A Menina e o Bonsai

A menina foi levada para comprar seu primeiro cachorro, os pais acharam que como toda criança Ane merecia ter um amiguinho e ela realmente queria, mas antes de sair de casa sua mãe roubou um pouco da infância dela.
Ela disse que Ane iria ganhar um cachorrinho, mas não seria uma coisa só boa, seria uma coisa ruim e ela não gostaria de sair de casa na chuva para ver se não faltava algo para o cachorro ou de ser suja por ele quando iria sair para passear. A mãe de Ane teve a capacidade de dizer pra ela que um dia o cachorro ia morrer e todo amor que ela depositasse no cachorro iria se transformar em dor e ela a carregaria para o resto da vida.
Ane já saiu de casa esperando para encontrar com o bichinho que iria fazer com que ela sofresse para sempre. Antes do carro começar a andar ela teve uma ideia: "eu vou comprar uma árvore, ouvi dizer que elas duram centenas de anos, ela viveria mais e o sofrimento seria dela".
Virou para a mãe e disse que não queria mais o cachorro, queria uma árvore, a mãe estranhou, disse que queria saber o porque e a menina pensou que sua mãe só podia estar brincando já que ela mesma à havia prevenido do mal que seria ter um cachorro. Depois de conversarem um pouco chegaram a conclusão de que a única árvore que ela poderia ter seria um bonsai. Quando chegaram à loja, ela foi olhando os bonsais e pensou: "pegarei um bem novo, assim ele será criança como eu", ela se ajoelhou na frente do mais barato de todos e disse:
- É esse aqui!
Seus pais disseram que sim e ela falou no canto do ouvido do bonsai:
- Terás que ser um grande amigo, pois será meu amigo a vida inteira.
Não se sabe se aquele bonsai era especial ou aquelas palavras eram mágicas, o que se sabe é que ele abriu os olhos e fez o sorriso que qualquer pessoa que ouvisse isto faria, mas fechou rápido, pensou que os amigos já tem que ser amigos pra quererem ser amigos pra sempre. Mesmo assim gostou muito de ouvir aquilo porque de algum modo pessoas  passavam por uma vida inteira sem ouvir essas lindas palavras.
Ela o levou na mão e toda vez que ele espiava estava ela a olhar-lo e sorrindo ele pensou: "eu já gostei dela"
Ela o colocou na sala, na única janela da casa que recebia as primeiras luzes do dia. Durante toda primavera ela deu a ele todo o carinho do mundo e veio o verão e no final do verão ele decidiu que ia falar com ela, afinal, ela poderia saber que ele não era uma árvore normal.
Enquanto pensava nisso ele olhou para fora e viu a primeira folha de outono começar a ficar marrom, ele pensou que um dia alguém havia passado por ali e dito que o outono e o inverno serviam para a natureza ficar menos bela e darmos mais atenção às pessoas, ou seja, ela o amaria menos e deixaria de dar-lhe atenção quase meio ano. Então ele começou a pensar no que faria para ela não abandona-lo, pensou em ser uma árvore de frutas, mas lembrou que não podia ser uma já que ele não era uma árvore. Depois pensou que podia ser uma árvore de natal, cheia de luzes, mas ele lembrou que faltava mais de meio ano para o natal, pensou que poderia se fantasiar de palhaço, "No dia em que foram no circo ela voltou muito feliz, sei lá, quem sabe de boneca?  Não, isto não".
Enquanto pensava o dia seguinte foi chegando e ela acordou, olhou para e perguntou ao vê-lo com seus galhos baixos:
- Por que tu ta tão triste?
Ele sem pensar respondeu:
- Acho que não poderei ser um bom amigo no Outono, minhas folhas vão cair e ficarei feio.
Ela nem prestou atenção ao que o bonsai estava falando, só o olhou e disse:
- Que tipo de amiga eu seria se não fosse tua amiga nas épocas que mais vais precisar de mim?
Ele sorriu e os dois seguiram com sua amizade como toda linda amizade deve ser, linda no verão ou no inverno, quando estamos cheios de vida ou meio murchinhos e sem folhas.

Autor: Téo

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Conto Curitibano

A poesia exalava de meus dedos e eu estava no ônibus, como sempre! A cidade era bela, onde houvesse tristeza ali havia uma flor e até onde há guerra ali também há a paz.
Nesta cidade vejo muitos estilos, de tudo um pouco, eu deveria ter dito.
Aqui sempre há um sol, mesmo que fraco para que em nenhuma estação falte um pouco de brilho. Aqui também há chuva, em qualquer lugar, pra que nunca se tenha tanta sede que não se possa saciar.
O frio, pra quem gosta de arrepios e o outono silencioso, pro vento poder escutar.
Nela não se mora, se tem um lar ... geometricamente ela é toda "regular", mas pensou também em todos os momentos que a vida podia causar!
Posto silencio e inquietude, fale apenas se quiser falar e o seu silencio falará pra você bem alto e apenas o vento virá conversar, embora ele também saiba passar morto se assim o desejar.
E se quiseres as árvores também sabem falar.
A Europa brasileira se considera meio alheia mas a música continua.
O clima ao que se der, cabe só a você permanecer de pé.
Sinto muito se encerro aqui o conto, é que acabei de chegar no meu ponto.