terça-feira, 26 de junho de 2012

O Castelo de Supplice

A escuridão tomava conta da pequena aldeia de supplice, a única luz vinha da fogueira em torno da qual todos dançavam. O clima festivo se dava pela boa colheita obtida aquele ano, o vinho era servido em abundância e a comida era farta.
Entre uma dança e outra, ouviu-se o som de um sino tocado ao longe, vindo do alto de um morro onde quase imperceptível jazia um castelo. A feição de todos se tornava mais tensa a cada nova badalada, todos correram, fecharam as portas e se esconderam aonde era possível; ao longe se ouviu um grito seguido de um rosnado ameaçador, então o silêncio e o som do mastigar de um animal. Quando o dia amanheceu fez-se a contagem dos sobreviventes, a família do morto estava desconsolada, mas sabia que nada era capaz de mudar o que havia acontecido. Hamilton, um jovem inglês que estava no local a passeio, tentou entender o que se passava e porque não havia uma reunião de homens corajosos para ir a caça do animal. Um dos anciãos contou-lhe que por vários anos tentaram e nenhum homem voltou com vida das expedições, até que um dia, quando a aldeia estava quase dizimada, o estranho morador do castelo acabou domesticando o animal. As vezes ele escapava e era isto que acontecia, mas desde então as mortes eram muito poucas e conformar-se com a própria sorte era o que de melhor se podia fazer. O animal sempre sabia quem era a vitima da vez e não havia porta capaz de detê-lo.
Hamilton não concordava, pois de onde vinha os problemas exigiam solução e por isto mesmo decidiu-se por ir até o castelo enfrentar tal criatura e libertar o povoado. O ancião alertou-lhe que não seria uma boa ideia, mas ele não deu ouvidos e seguiu.
O sol estava alto no céu quando ele chegou aos grandes portões da propriedade, um dos lados estava caído o que deixava livre a passagem de quem ali chegasse. Pensou que era natural que o animal escapasse com tamanho descuido, tentou observar pelas janelas para dentro do castelo que mais parecia uma ruína sem vida, mas nada pôde enxergar. Puxou as pesadas argolas de ferro que estavam penduradas na porta e soltou-as. O barulho do ferro batendo na madeira foi seguido por um latido forte e pela voz de um homem que pedia calma ao animal.
- Perdoe-me a demora, meu cão estava um pouco agitado e precisei conte-lo. Diga-me! Em que posso ajuda-lo?
- Sou Hamilton, comerciante inglês, estava na aldeia ontem a noite.
- Imagino que não tenha sido uma experiência agradável.
- Não, e vim aqui para libertar aquele povo.
- Você não sabe o que diz, vamos, pare com esta besteira enquanto ainda está vivo.
- Um animal não pode fazer o que bem entender, e se você não pode conte-lo darei um jeito eu mesmo.
- Ninguém pode conte-lo, nem mesmo eu. O ódio só o torna mais forte e é por isto que o mantenho aqui o máximo possível, pois nem eu nem ele encontramos motivos para ódio isolados aqui.
- Não entendo.
- Todas as expedições falharam porque não o entendiam, eram compostas por homens cheios de ódio em seus corações, ele os sente e se alimenta deles. Sua força que já é gigantesca aumenta mais toda vez que sente o ódio em alguém. Então o encontrei na mata, não o conhecia, não sabia de seus atos, apenas cuidei de algumas feridas e ele passou a me seguir, desde então parou de atacar o povoado. Demorou muito até eu perceber que nenhum muro poderia conte-lo, então guardei minhas lembranças em um baú velho, pois percebi que ele ficava mais agitado conforme eu me exaltava pelos sentimentos que aquilo trazia e que ter as lembranças à mão era uma maneira de liberta-lo. Notei que ele só sai quando sente que há alguém tomado de ódio nas redondezas, Então pus um sino no castelo, para avisar aos moradores quando ele sai daqui, muito embora não haja nada que possa ser feito.
- Eu o farei - bradou Hamilton - onde ele esta?

Então o animal pulou por detrás da escada que levava ao segundo piso, o senhor do castelo tentava acalma-lo enquanto o ódio nos olhos de Hamilton era substituído pelo medo, num descuido, o homem se desvencilhou e correu o quanto pode, até desaparecer daquelas terras. O animal, em parte contido pelo seu bem feitor, em parte por não suportar a presença do medo desistiu de atacar o viajante.
Por todo lugar onde passava, Hamilton contava a história da feroz criatura que vivia escondida em um castelo e se alimentava do ódio das pessoas, um ser tão terrível que não podia ser contido, somente respeitado, pois na presença de um sentimento tão destrutivo ele se libertava e tornava-se ele mesmo a destruição.

by Arthur Lingard

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A flor


O tribunal estava lotado, todos com caras de ódio observando àquela que tinha cometido tão grave crime.
A promotoria se esforçava em demonstrar a gravidade do ato cometido e a defesa em explicar que o ilícito era apenas uma tentativa de imprimir o lúdico a pessoas tão desprovidas de beleza em seu dia a dia.
As senhoras mais exaltadas ressaltavam a importância de uma punição severa que demonstrasse que tal atitude jamais seria tolerada naquela cidade, seria uma maneira de mostrar a todos que por ali passassem, que ali era um local onde a família era respeitada e que qualquer um que tentasse repetir aquela condenável atitude teria o mesmo destino.
Testemunhas detalhavam enfaticamente o ocorrido e tentavam demonstrar o quanto aquilo era inescrupuloso e que a ré não demonstrava o menor remorso pelo crime cometido. Ela por sua vez parecia estar em outro planeta observando a arquitetura do lugar, hora assustada, hora achando engraçado a ênfase na fala daquelas pessoas.
Então o juiz chamou a criminosa ao banco das testemunhas para dar a sua declaração, o advogado de defesa protestou, mas foi inevitável.
O promotor logo perguntou o porquê de tal ato e a garota respondeu que todos pareciam tão sérios e bravos naquela cidade, que ela pensou que pintar uma flor na calçada talvez arrancasse alguns sorrisos e melhorasse a vida dos que ali viviam. Uma mulher se levantou e disse que pichações não eram aceitas por ali e que este tipo de ato devia ser enfaticamente reprimido, pois mesmo que por um motivo nobre, não reprimi-lo seria automaticamente dar um recado a outros pichadores de que poderiam se safar.
A garota então disse que não esperava que todos se irritassem daquela maneira e que se seu desenho era tão ofensivo ela mesma o limparia. Ela ainda citou que havia se mudado recentemente, mas achava que as pessoas daquele lugar precisavam de mais amor pois estavam o tempo todo preocupadas com a aparência de suas casas e se esqueciam de dar valor as pessoas, que são a única coisa que realmente importa. Terminado de dizer isto ela deu uma rosa ao promotor e um beijo em sua bochecha, pediu desculpas e prometeu não mais repetir sua atitude tão desprezível.
O juiz se emocionou com o depoimento e decidiu inocentar a garota de 3 anos que tinha cometido o grave crime de pintar uma flor na calçada com seu giz de cera e por tal motivo irritado os habitantes daquela pequena cidade ao sul da Califórnia.

domingo, 27 de maio de 2012

A Ilha dos Sentimentos - de Sílvio Anjo.

Era uma vez uma Ilha onde moravam todos os sentimentos:
a Alegria, a Tristeza, a Vaidade, a Sabedoria, o Amor e outros ...
Um dia avisaram aos moradores da Ilha que ela seria inundada. Apavorado, o Amor cuidou para que todos os sentimentos se salvassem.
Ele disse:
- Fujam! A Ilha será inundada!
Todos correram e pegaram os barquinhos para irem até um morro bem alto. Só o amor não se apressou, amava a Ilha e queria ficar um pouco mais ... quando já estava se afogando, o Amor gritou aos outros sentimentos clamando por socorro.
Vinha vindo a riqueza e ele disse:
- Riqueza me leva com você?
– Não posso, meu barco está cheio de prata e ouro, aqui não tem espaço para mais nada!
Passou a Vaidade e o Amor novamente gritou:
- Vaidade, posso ir com você?
– Não, você vai sujar meu barco novo!
Passou a Tristeza e mais uma vez o Amor clamou:
- Me leva com você?
– Até queria te salvar e te levar comigo para um porto seguro, mas estou tão triste que meu barco está cheio de lágrimas, não cabe você!
Passou a Alegria, mas ela estava tão feliz que nem ouviu o Amor gritar. Já desesperado e achando que iria ficar só, o amor começou a chorar. Passou a sabedoria e viu o amor chorando.
– Amor não fique assim ... Não se desespere, meu barco está cheio de livros, mas ainda tem o barco da esperança, acredite nas palavras da Sabedoria, a esperança te salvará!
Então passou um velhinho olhando e falou:
- Sobe Amor ... eu te levo!
O Amor ficou tão radiante que esqueceu de perguntar o nome do velhinho! Por fim, chegando no morro alto, o amor encontrou a Sabedoria e perguntou-lhe:
- Aquele velhinho que me trouxe até aqui são e salvo? Era a esperança?
– Era o Tempo! - Respondeu a Sabedoria.
-O Tempo? Mas por que só o tempo me trouxe até aqui? E a esperança? A esperança não pode morrer!
A Sabedoria respondeu:
- O tempo te salvou, mas usando o barco da esperança, a esperança está viva dentro de ti, mas só o tempo é capaz de reconhecer um grande Amor!

Texto Original: http://semtalentoparanada.blogspot.com.br/2011/12/verdadeira-historia-dos-sentimentos.html

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A construção

Havia uma família que tinha uma bela casa, cada tijolo havia sido colocado com muito cuidado e cada passo da construção estava guardado ainda na memória!
Adoravam a sua localização, tinham alguns problemas de umidade, precisavam de mais um quarto, mas gostavam tanto daquela casa que não conseguiam fazer as reformar com medo de mudar a história da construção daquele lugar obtida com tanta luta.
Vieram as chuvas algumas arvores caíram sobre a casa. Técnicos vieram analisar a construção e constataram que era hora de demolir a casa, pois não resistiria muito tempo. A família viu ruir seu sonho com profunda tristeza e houve muito choro. A dor era imensa, pois as memórias estavam ainda postas dentro deles.
Após perceberem que era inevitável, a família finalmente cedeu e a casa foi enfim derrubada ... era o fim de um sonho, era pior que a morte! Tinham para onde ir mas permaneceram acampados ali, olhando a ruína do que sobrou de seus sonhos,   parecia que queriam protelar o martírio que lhes consumia.
Após um tempo de luto remoendo a dor e relutando em mudar-se, alguns vizinhos se compadeceram e decidiram ajuda-los com materiais e mão de obra. Estar no terreno lhes trazia boas lembranças e dia a dia, tijolo por tijolo, foi sendo construída uma nova habitação, que levava todas as boas experiencias vivenciadas na antiga casa, somadas as experiências novas que viviam ali, na nova construção.
A casa foi erguida melhor e mais moderna, mais adequada as novas necessidades deles, pois agora os moradores conheciam os pontos que mereciam cuidado, os que precisavam de mudança e poderiam finalmente fazer as melhorias necessárias.
Ao final da construção, perceberam que haviam feito uma casa muito mais forte e muito mais bela do que já haviam sonhado em ter e que agora viveriam confortavelmente em um lugar que não iria mais ruir.
Perceberam que as vezes a gente se agarra ao passado e aos sonhos que almejou e se esquece de olhar para o futuro e adaptar nossos sonhos permitindo que algo novo preencha-nos com os ventos bons da mudança. A história precisa ser respeitada, mas até uma tragédia as vezes é necessária para nos fazer seguir em frente, rumo ao que está preparado para nós.

sábado, 5 de maio de 2012

O Reencontro.

Ele se aproximou devagar, há tempos que não se viam e teve medo da reação dela. Ficou um tempo observando ao longe, na verdade ele a admirava. "Há quanto tempo não a vejo? E ela está ainda mais linda".
Eram o casal mais apaixonado que alguém podia conhecer, mas ela recebeu um convite para estudar no exterior. Com muito custo a convenceram de que seria bom para ela e durante todo este tempo ambos ficaram separados, conversando pelos meios eletrônicos a que tinham acesso.
A correria do dia a dia fez com que os contatos fossem cada vez menos frequentes e ela teve dúvidas, sentiu carência e se permitiu namorar um outro rapaz.
Ambos concordaram que era melhor a liberdade que a mentira, então ele também viveu sua vida, mas nem por um instante deixaram de lembrar um do outro. Ela o esperava ansiosamente, tinha passado todos estes meses imaginado este momento.
Demorou a perceber que ao longe naquele terminal, ele a observava. Quando ele se aproximou, caminhava olhando-a fixamente, tentando intuir que pensamentos passavam por sua cabeça naquele momento somente lendo-os em seu olhar. Ela por sua vez não sabia o que fazer com as mãos, estava sem jeito até para ficar parada, imaginava de que maneira iria cumprimenta-lo. "Melhor esperar e ver o que ele faz". 
Quando ele finalmente se aproximou, ela abaixou levemente o rosto com ar de quem espera a aproximação, ele acariciou seus belos cabelos com a mão direita e se permitiu afagar-lhe o rosto. Ela levantou o ombro pra perto do rosto, pressionando a mão dele, como quem quer aproveitar um pouco mais daquele instante único de um carinho sem igual.
Ele a olhava nos olhos e via neles um brilho único, brilho que ele não via em nenhuma outra mulher. Escorregou a mão direita para a nuca dela, aproximou seus lábios lentamente e a beijou devagar, conforme ela se soltava ele a puxava um pouco mais para perto, como quem quer sentir alguém com mais intensidade. Neste momento os dois puderam sentir a adrenalina que corria seus corpos e aumentava a intensidade do beijo, aquela que poucas pessoas são capazes de provocar.
Seguiram abraçados, sentindo em si o coração do outro, trocando juras de amor ali, naquele terminal, por um bom tempo. Ela dizia que não iria mais ficar longe dele e ele falava para ela sobre o quanto a amava e sentira sua falta.
Aos passantes as reações eram imprevisíveis, alguns se indignavam com a cena que viam, outros olhavam com desejo e havia ainda aqueles que sorriam com os olhos ao ver um amor verdadeiro em um mundo tão cheio de amores de brinquedo.
Eles teriam um dia atarefado até que chegasse a noite e pudessem finalmente matar a saudade que os consumia, mesmo assim pareciam querer prolongar mais e mais aquele instante que preenchia seus corações tão cansados da dor da ausência, ausência esta, que só conhece aquele que sabe quem é este tal de amor.

A Menina e o Bonsai

A menina foi levada para comprar seu primeiro cachorro, os pais acharam que como toda criança Ane merecia ter um amiguinho e ela realmente queria, mas antes de sair de casa sua mãe roubou um pouco da infância dela.
Ela disse que Ane iria ganhar um cachorrinho, mas não seria uma coisa só boa, seria uma coisa ruim e ela não gostaria de sair de casa na chuva para ver se não faltava algo para o cachorro ou de ser suja por ele quando iria sair para passear. A mãe de Ane teve a capacidade de dizer pra ela que um dia o cachorro ia morrer e todo amor que ela depositasse no cachorro iria se transformar em dor e ela a carregaria para o resto da vida.
Ane já saiu de casa esperando para encontrar com o bichinho que iria fazer com que ela sofresse para sempre. Antes do carro começar a andar ela teve uma ideia: "eu vou comprar uma árvore, ouvi dizer que elas duram centenas de anos, ela viveria mais e o sofrimento seria dela".
Virou para a mãe e disse que não queria mais o cachorro, queria uma árvore, a mãe estranhou, disse que queria saber o porque e a menina pensou que sua mãe só podia estar brincando já que ela mesma à havia prevenido do mal que seria ter um cachorro. Depois de conversarem um pouco chegaram a conclusão de que a única árvore que ela poderia ter seria um bonsai. Quando chegaram à loja, ela foi olhando os bonsais e pensou: "pegarei um bem novo, assim ele será criança como eu", ela se ajoelhou na frente do mais barato de todos e disse:
- É esse aqui!
Seus pais disseram que sim e ela falou no canto do ouvido do bonsai:
- Terás que ser um grande amigo, pois será meu amigo a vida inteira.
Não se sabe se aquele bonsai era especial ou aquelas palavras eram mágicas, o que se sabe é que ele abriu os olhos e fez o sorriso que qualquer pessoa que ouvisse isto faria, mas fechou rápido, pensou que os amigos já tem que ser amigos pra quererem ser amigos pra sempre. Mesmo assim gostou muito de ouvir aquilo porque de algum modo pessoas  passavam por uma vida inteira sem ouvir essas lindas palavras.
Ela o levou na mão e toda vez que ele espiava estava ela a olhar-lo e sorrindo ele pensou: "eu já gostei dela"
Ela o colocou na sala, na única janela da casa que recebia as primeiras luzes do dia. Durante toda primavera ela deu a ele todo o carinho do mundo e veio o verão e no final do verão ele decidiu que ia falar com ela, afinal, ela poderia saber que ele não era uma árvore normal.
Enquanto pensava nisso ele olhou para fora e viu a primeira folha de outono começar a ficar marrom, ele pensou que um dia alguém havia passado por ali e dito que o outono e o inverno serviam para a natureza ficar menos bela e darmos mais atenção às pessoas, ou seja, ela o amaria menos e deixaria de dar-lhe atenção quase meio ano. Então ele começou a pensar no que faria para ela não abandona-lo, pensou em ser uma árvore de frutas, mas lembrou que não podia ser uma já que ele não era uma árvore. Depois pensou que podia ser uma árvore de natal, cheia de luzes, mas ele lembrou que faltava mais de meio ano para o natal, pensou que poderia se fantasiar de palhaço, "No dia em que foram no circo ela voltou muito feliz, sei lá, quem sabe de boneca?  Não, isto não".
Enquanto pensava o dia seguinte foi chegando e ela acordou, olhou para e perguntou ao vê-lo com seus galhos baixos:
- Por que tu ta tão triste?
Ele sem pensar respondeu:
- Acho que não poderei ser um bom amigo no Outono, minhas folhas vão cair e ficarei feio.
Ela nem prestou atenção ao que o bonsai estava falando, só o olhou e disse:
- Que tipo de amiga eu seria se não fosse tua amiga nas épocas que mais vais precisar de mim?
Ele sorriu e os dois seguiram com sua amizade como toda linda amizade deve ser, linda no verão ou no inverno, quando estamos cheios de vida ou meio murchinhos e sem folhas.

Autor: Téo

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Conto Curitibano

A poesia exalava de meus dedos e eu estava no ônibus, como sempre! A cidade era bela, onde houvesse tristeza ali havia uma flor e até onde há guerra ali também há a paz.
Nesta cidade vejo muitos estilos, de tudo um pouco, eu deveria ter dito.
Aqui sempre há um sol, mesmo que fraco para que em nenhuma estação falte um pouco de brilho. Aqui também há chuva, em qualquer lugar, pra que nunca se tenha tanta sede que não se possa saciar.
O frio, pra quem gosta de arrepios e o outono silencioso, pro vento poder escutar.
Nela não se mora, se tem um lar ... geometricamente ela é toda "regular", mas pensou também em todos os momentos que a vida podia causar!
Posto silencio e inquietude, fale apenas se quiser falar e o seu silencio falará pra você bem alto e apenas o vento virá conversar, embora ele também saiba passar morto se assim o desejar.
E se quiseres as árvores também sabem falar.
A Europa brasileira se considera meio alheia mas a música continua.
O clima ao que se der, cabe só a você permanecer de pé.
Sinto muito se encerro aqui o conto, é que acabei de chegar no meu ponto.

Meueu

Naquela enorme biblioteca silenciosa e vazia se encontrava Meueu em mais um dia de trabalho tão vazio quanto a biblioteca e a sua alma. Organizava antigos livros de ocultismo quando derrubou um pesado volume no chão. Parou por um instante a observar o fato com alguma preocupação, em todos estes anos de trabalho nunca derrubara um único livro. Desceu as escadas em que estava e abaixou em direção ao livro no chão. Na página aberta estava escrito em letras grandes “Quem é você? O que está fazendo aqui?”. Meueu levantou os olhos e mirou a extensa biblioteca sem um único pensamento na cabeça. Baixou os olhos novamente e leu na seqüência um começo de texto que dizia: ”Quem não se conhece não é capaz de enxergar a realidade, vive sob a ilusão e mareia seus olhos pelo vazio de significado em que sofre sua alma”.
Meueu carregou o volume aberto com as duas mãos e colocou-o em uma mesa próxima da varanda a qual dirigiu-se e de onde olhou o horizonte detidamente por algum tempo. Logo que os pensamentos lhe voltaram pensou, “eu vejo a realidade”, e voltou para dentro para continuar seu trabalho.
Ao passar pela mesa viu que ao lado de seu livro estava seu insuportável colega de trabalho, que ao ver o desgosto no rosto de Meueu expressou com ironia :
- Veja se não é o Grande Meueu saindo da toca! Já se cansou dos ratos que acompanham sua laia e consomem sua vida? Será que é chegada a hora do grande superior se misturar com o povo,ou ainda não está pronto para ver que não é tão superior assim?!
Meueu levantou os olhos e tomou seu livro pela mão, fechando-o sem interesse levou-o de volta à estante. Desgostoso por encontrar Tirano resolveu ir até a cozinha tomar um café, lá encontrou Raíze comendo bolachas e lembrou-se que não comia nada à muitas horas e seu estomago roncou. Ao ver os olhos compridos de Meueu  sobre o que comia Raíze tomou do saco de bolachas e ofereceu um pouco a ele. Meueu pegou o pacote e começou a comer, mas o sabor lhe agradava tanto e tinha a barriga tão vazia que acabou devorando todo o pacote sem dar-se conta de que não o dividira com a dona. Raíze que se deteve observando-o durante o devorar de suas bolachas olhou-o no fundo dos olhos como se expusesse o do âmago da terra e disse:
- Meueu , a gula de sua mente degluti a verdade de sua existência com tal avidez que tu não és capaz de ver a tempo o que está inserindo em sua alma. A impulsão de sua gula é tamanha que és capaz de expelir uma pedra filosofal que tenha ingerido sem apropriar-se de um único dom dela, sem nutrir-se de suas verdades tal qual se valor não tivesse. Perde seus verdadeiros presentes pelas falhas de tua mente.
Novamente enraivecido pela interação com as pessoas, afastou-se rapidamente dali. Porém, como as palavras dela não lhe fugiam a memória perguntava-se o que seria a tal da pedra filosofal, dirigiu-se a procurar num índice enciclopédico, acabando com um volume na mão em que lia sobre a pedra tão almejada pelos alquimistas para transformar qualquer metal em ouro. Enquanto lia sentiu sutilmente que alguém se aproximava, levantou os olhos e viu alguém que não conhecia olhando pra ele com espanto e dizendo em alarma:
-Meueu aquele que pergunta adentra a maldição de buscar a resposta e perder a inocência, padecer dos desígnios da consciência. Sem saber reverter o caminho do conhecer afoga-se no mar das descobertas que calam a possibilidade de não serem mais vistas.
Ao concluir as palavras saiu por um corredor. Atordoado Meueu procurou seguir-lo, mas viu-se no centro da biblioteca, sobre um símbolo da rosa dos ventos que havia no chão. Olhou para a esquerda e espantado quase perdeu o som da fala. Aquele que seguira, agora era visto como um espelho, o qual ele apontou e vendo-se disse, quase sem voz, “meu eu!”. Olhou para o lado oposto onde estava Tirano, o mesmo se passou e ele disse “meu eu!”. Virou seu rosto para frente, Raíze saía da cozinha,viu de novo seu reflexo e repetiu: “meu eu!”. Com o coração acelerado virou-se para trás e viu o caminho da porta de entrada, por onde passara todos os dias por tantos anos. Saiu para a rua e viu o mundo pela primeira vez. 

Um conto de Raquel Kucker Martins

domingo, 29 de abril de 2012

Amanda


As estações passam e modificam a vista aos amantes da natureza, mas naquele palacete no batel, a vista era belíssima a qualquer dia do ano. Porém algo estava errado, uma jovem, cansada das desilusões da vida, da rotina, das coisas que fazia e das que deixava de fazer.
Amanda era belíssima, beirava os dezenove anos, tinha tudo que uma garota da sua idade poderia querer, mas algo lhe faltava e naquela tarde, ela estava debruçada no parapeito da enorme sacada de seu quarto com ar de fatigada, parecia uma bela pintura a quem olhava-a de fora. Observava as belas árvores de seu quintal, sem folhas nesta época do ano, imaginando que tipo de sentimento era aquele que tomava conta dela, que ausência estranha lhe corroia por dentro e fazia imaginar o porque de estar ali parada.
Tinha amigas apenas na vizinhança e as saídas ao shopping já não preenchiam mais seu tempo como antes. Amanda queria algo novo, queria um pouco de vida, a vida que não tinha, a vida que via além dos grandes portões da propriedade em que morava, estampada nos rostos das pessoas que passavam na rua, a vida que via nos filmes e novelas da TV, ao invés disto, estava lá, entediada, presa em sua masmorra pessoal sem saber nem mesmo que tipos de sentimentos passavam em seu coração.
A noite reservava um jantar de gala, “mais um jantar enfadonho onde verei as mesmas pessoas dizendo as mesmas coisas de sempre”, inventou uma indisposição e decidiu ficar em casa, já ia se arrumando para dormir quando ouviu uma freada seguida de um estrondo. Foi a sacada observar e viu um veículo todo amassado contra um poste em frente ao palacete, caminhou até o portão mais por curiosidade, já que havia muitas pessoas atendendo o rapaz que parecia não ter se ferido. Ficou ali, observando aquela cena diferente à seu dia e começou a conversar com algumas pessoas,  jovens se preparando para ir a um bar ali perto, que pararam para ver se ninguém havia se ferido. E foi assim, despretensiosamente que a moça que viu uma amiga em Amanda, a convidou para acompanha-los.
A jovem se arrumou depressa e foi de carona no carro da mais nova amiga, não era seu costume sair e tão pouco seus pais permitiriam, mas eles não estavam em casa e ela precisava de um pouco de adrenalina. No bar, a moça se divertiu, sorriu, foi cortejada e chegou a beijar um rapaz, mas tão pouco era aquilo que lhe interessava e logo ela voltou para pista dançar. Permaneceram no local por algumas horas e depois decidiram ir a outro lugar.
Quando já retornavam o carro foi parado por policiais que averiguavam a documentação enquanto Amanda desceu por um momento, nunca tinha visto uma abordagem policial de perto e achou interessante todo aparato utilizado naquela blitz. No carro ao lado, sentado no capo estava um jovem que chamou a atenção dela, ela era uma moça tímida, mas resolveu se aproximar e puxar conversa enquanto aguardavam o termino da averiguação. Trocaram telefones e seguiram cada um seu caminho.
A jovem que dirigia resolveu comprar cigarros e qual foi à surpresa de Amanda ao ver aquele jovem parado no mesmo posto. Enquanto a amiga esperava na fila da loja de conveniências, ela voltou a conversar com o rapaz que aguardava o frentista abastecer.  O dia já começava a amanhecer quando ela chegou em casa, ficou surpresa ao não ver seus pais que chegaram logo depois.
O rapaz ligou no dia seguinte, e no outro, e no outro, até que decidiram finalmente sair. Ela não tinha grandes esperanças de um romance, queria apenas que o momento em que estivesse com ele fosse bom, mas algo tinha mudado dentro dela, uma só noite lhe mostrou que ela poderia fazer diferente e se tornar senhora de sua vida e que a decisão por fazer algo tinha mexido com ela. Amanda já não sentia mais o vazio que tanto a incomodava, agora era apenas ansiedade, mas uma ansiedade boa de não saber o que esta por vir, mas de saber que finalmente, alguma coisa mudou. Também percebeu que cada escolha daquele dia, mesmo as que pareciam tão insignificantes, tinha contribuído para tornar aquela noite única e para lhe mostrar que havia outro caminho, com outras pessoas e que ela seria mais feliz, se ela se permitisse viver.

sábado, 28 de abril de 2012

A parede torta!

Em 1980 um famoso médico americano foi trabalhar em um vilarejo ao sul da Prússia. Ele queria ajudar algumas pessoas em uma terra isolada e carente de recursos da medicina, queria também ensinar um pouco do que sabia e aquele lugar formado de pessoas simples parecia o ideal.
Hank acordava às quatro da manhã, quando todos ainda estavam dormindo e fazia silencioso a caminhada até o consultório que ficava no outro lado da vila. Fazia sempre o mesmo caminho e sempre andava sozinho. A cabeça do médico estava o tempo todo nas consultas a realizar e nas possíveis curas de pacientes que o tinham como ultima esperança, pensava também que ainda não tinha conseguido ensinar nada a ninguém e já estava ali há dois meses.
Foi um tropeção que mudou seu destino, uma pedra qualquer mal posicionada, Hank nem chegou a cair, mas voltou a realidade. Percebeu que tinha que prestar mais atenção ao caminho e acabou por notar a beleza e simplicidade das construções daquele lugar, todas sem muros nem cercas inspirando liberdade e mostrando a confiança daqueles cidadãos em seu próprio povo.
Havia uma bela casa, tinha ares de ter pertencido a alguma família grande, a madeira estava um pouco envelhecida e a tinta já sentia os efeitos da exposição constante ao sol. Na parede da sacada havia um quadro com uma foto em preto e branco emoldurada de uma bela mulher que aparentava seus vinte anos.
O fato é que Hank era metódico, aquele quadro estava torto e ele desviou seu caminho para consertar a posição. Subiu devagar os três degraus da entrada, a madeira já desacostumada a visitas rangeu quando ele pisou sobre ela. O médico pôs o quadro no lugar e seguiu seu caminho.
Chegou ao consultório satisfeito com a façanha que havia realizado. Quando passava em direção a sua casa para almoçar, percebeu o quadro novamente torto e novamente arrumou a posição do quadro, na volta ao consultório a cena inusitada se repetiu e na volta para casa a mesma coisa. Hank era insistente e todos os dias arrumava a posição do quadro nas quatro ocasiões em que passava por ele, até que decidiu descobrir quem deixava aquele quadro torto. Arrumou a posição do quadro e ficou a espreita, um casal passava pelo local percebeu o quadro simetricamente bem ajustado e o rapaz logo alterou a posição para que ficasse torto. E assim se seguiu o dia todo, o Dr. arrumava o quadro, se escondia e o primeiro que passava percebia e “arrumava” para que ficasse novamente torto. A certa altura decidiu perguntar a alguém se não achava estranho o quadro estar torto e a única resposta que recebeu foi a de que não era o quadro que estava torto e sim a parede. Aquilo o intrigava cada vez mais, não adiantava arrumar o quadro e não adiantava perguntar por que o quadro estava torto, pois aquela cidade parecia simplesmente não ver isto. A resposta de todos era de que a parede é quem estava torta.
Hank voltou a se dedicar as suas atividades no hospital, sem deixar de arrumar o quadro toda vez que passava por ele, achava que um dia as pessoas perceberiam que a parede estava perfeita e que o correto era ajusta-lo simetricamente a ela.
Havia uma idosa na fila para se consultar, não estava tão mal, apenas tinha idade avançada e ele receitou alguns remédios a ela, na hora de sair ela se voltou para ele e disse:
- É o Sr. quem tem deixado o quadro torto, não é?
- Pelo contrário, eu tenho arrumado a posição dele, mas já que a senhora mencionou, poderia me explicar o porquê de todos acharem que a parede esta torta?
-Claro, mas a história é comprida.
- Tenho tempo.
- Lembro como se fosse ontem, naquela época não era fácil ter uma fotografia, não era como estas máquinas modernas com estes filmes que é só revelar, era caro e precisava de um fotografo e algumas horas parada na mesma posição. Ivana era uma moça bonita e muito cobiçada, Dimitri a conquistou com seus versos e construiu aquela casa com a ajuda de seus irmãos, morava pouca gente por aqui. Ele era tão apaixonado que quando o fotógrafo chegou ao vilarejo ele vendeu algumas joias que eram herança de seus pais e usou tudo para ter uma foto dela, algum tempo depois nasceu Ivanovski e quando a felicidade do casal parecia completa quis Deus que ela adoecesse e de súbito partisse deste mundo. Dimitri ficou muito entristecido e pendurou a foto na sacada onde costumava ficar admirando-a, ele costumava dizer a quem perguntasse que uma obra de arte como aquela merecia ser admirada por todos e por isto não seria justo pendura-la na sala. O garoto crescia indiferente a dor do pai, era pequeno demais quando a mãe morreu. Dimitri sempre reclamava quando ele jogava bola em frente de casa, pois poderia acertar o quadro, mas o garoto achava que não havia gol melhor que as vigas daquela sacada. Acontece que o garoto sabia como dobrar o pai e um dia enquanto ele escrevia, Ivanovski e um colega jogavam bola usando a sacada como gol, o garoto errou o chute e acertou próximo ao quadro que entortou com o impacto. Dimitri saiu irritado aos berros dizendo que já tinha avisado que ali não era lugar, mas o garoto disse que não estava jogando bola e quando ele indagou sobre o porquê de o quadro estar torto o garoto respondeu: “Não é o quadro que está torto, é a parede que está. Quando o senhor estava lá dentro estava certinho, mas agora que esta na porta desequilibrou o peso sobre a casa e ela entortou fazendo parecer que o quadro está torto, quando na verdade foi a parede que entortou”. O senhor consegue imaginar um garoto de seis anos criando uma história dessas do nada?
- Bem criativo mesmo, mas isto fez a cidade toda manter a história do garoto?
- Claro que não Sr Hank, acontece que o garoto cresceu e se tornou um dos jovens mais importantes da região, ajudava com tudo que podia, se alguém tinha dúvidas na escola ele fazia uma aula de reforço, se faltava mão de obra na colheita ele estava lá, se alguém precisava construir podia contar com ele e ele nunca pedia nada em troca. Só que veio a guerra e Ivanovski não voltou, a tristeza foi de todos, Dimitri entortou o quadro e contou a história no velório do garoto. Quando ele morreu há dez anos a casa ficou vazia, mas os habitantes do vilarejo ajudaram a conserva-la bem cuidada e mantiveram a tradição em memória a três pessoas tão fantásticas que fizeram parte da nossa história.
Hank estava emocionado, nunca mais mexeu com o quadro e passou a entender a fixação daquele lugar, percebeu que algumas coisas parecem erradas àqueles que utilizam o prisma errado e que tentara mudar a cultura de um povo ao invés de entendê-la e se adequar a ela. No fim, percebeu que a parede estava torta simplesmente porque o vilarejo queria que estivesse e que se ele achava que não estava era ele o insano.
Foram mais quatro meses de trabalho e ele iria voltar à Nova York em duas semanas, seu substituto veio conhecer o lugar e quando o acompanhava percebeu aquela casa que destoava das demais.
- Esta casa é mais antiga que as outras.
- Verdade.
- Estranho ninguém arrumar a posição daquele quadro, não consigo observa-lo assim sem me incomodar.
- Mike, sinto lhe dizer, mas não é o quadro que está torto, é a parede que está!